terça-feira, 3 de setembro de 2013

Sob o Acicate das Crenças Liberalóides


Tomei o título da coluna do brilhante estudo literário que o Belluzzo publicou no Valor de hoje.

Espero que meus amigos economistas não se ofendam com o que vou dizer: quanto mais os leio, mais me convenço de que os únicos lúcidos são os “ex”. Sim: os ex-economistas são os únicos que prestam.

Por isso gostei de ver dois dos nossos melhores “ex” desancarem os colegas da ativa no Valor de hoje. Refiro-me, é claro, aos insuperáveis Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo, ex-economistas de escol. Sabedoria e sensatez em dose dupla.

Os dois tratam com sóbria desconfiança (e algum escárnio) tudo o que desconhecem. Entendo porque também sou assim. Exemplo: desdenho da física quântica e acho a colonoscopia um risível equívoco.

Já o Belluzzo desdenha das projeções: “Como de hábito, naufragaram as previsões desatadas nas últimas semanas a respeito do crescimento do PIB.”

Certíssimo! Naufragam tanto que me pergunto por que ainda são feitas. Bem faz o Arno, lá no Tesouro: um dia de cada vez, sem planejamentos. O socialismo, em seu estágio mais avançado, dispensa previsões. Chegaremos lá.

Curti, como sempre, o ensaio do Belluzzo, nosso Salman Rushdie: erudito, desfrutável e docemente incompreensível.

O economista Robert Lucas, diz ele, está sentado “na cumeeira da insensibilidade econômica”, de onde se dedica a “exercícios de escapismo do mundo dos mortais”, estando para isso “paramentado com as vestes das expectativas racionais”. Uau!

O Banco Central da Suécia foi mesmo imprudente ao “perpetrar a entronização dos sábios da ciência triste no panteão dos benfeitores da humanidade”. Porreta!

Surge mais adiante o enigmático “acicate das crenças liberalóides”. No mesmo parágrafo, há um meio mundo “entoando o canto das sereias dos mercados eficientes, hipótese destilada nas retortas das teorias das expectativas racionais”. Destilada nas retortas!

Já o que o Delfim revela em sua coluna é um caso de polícia. Não sei se vocês já sabiam:

(alguns economistas)... inventaram "a posteriori" a teoria que os mercados financeiros eram "perfeitos", que deixados a si mesmos eram "autorreguláveis" e tinham uma "moralidade ínsita". Tratava-se de "pseudo ciência" contra toda a evidência histórica secularmente acumulada: o sistema financeiro sem regulação retorna, sempre, ao local do crime.

Não entendi essa volta ao local do crime, mas claramente tem malfeito nessa história. Quem são esses criminosos a quem Delfim estende a proteção do anonimato? Que teoria é essa, onde isso está escrito? Fiquei um pouco alarmado, mas confio no julgamento do professor.

A elegância dos textos e o descaso pela ciência econômica revelam longo processo de desintoxicação. Meu palpite? Delfim e Belluzzo leram, cada um, seu último livro de economia há uns trinta anos. De lá para cá, só orelhas. É isso que os conserva lúcidos e pertinentes!

3 comentários:

  1. "Delfim e Belluzzo leram, cada um, seu último livro de economia há uns trinta anos. De lá para cá, só orelhas." Perfeito!
    Desconfio que esse seja o caso de vários de meus ex-professores de economia...

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  2. ¯\_(ツ)_/¯
    2017: a todos do blog, que fiquem atentos à picaretagem em 2017 & que vossas mentes permaneçam rápidas perante ao ilusionismo do PT.
    Um sublime 2017!

    Viva 2016!

    Em 2016 houve fato fabuloso sim, apesar de Vanessa Grazziotin falar que não, dessa forma equivocada assim:
    “O ano de 2016 é, sem dúvida, daqueles que dificilmente será esquecido. Ficará marcado na história pelos acontecimentos negativos ocorridos no Brasil e no mundo. Esse é o sentimento das pessoas”, diz Grazziotin.

    Mas, por outro lado, nem que seja apenas 1 fato positivo houve sim! É claro! Mesmo que seja, somente e só, um ato notável, de êxito. Extraordinário. Onde a sociedade se mostrou. Divino. Que ficará na história para sempre, para o início de um horizonte progressista do Brasil, na vida cultural, na artística, na esfera política, e na econômica.

    Que jamais será esquecido tal nascer dos anos a partir de 2016, apontando para frente. Ano em orientação à alta-cultura. Acontecimento esse verdadeiramente um marco histórico prodigioso. Tal ação acorrida em 2016 ocasionou o triunfo sobre a incompetência. Incrementando sim o Brasil em direção a modernidade, a reformas e mudanças positivas e progressistas. Enfim: admirável.

    Qual foi, afinal, essa ação sui-generis?
    Tal fato luminoso foi o:

    — «Tchau querida!»*

    [ (*) a «Coração Valente©» do João Santana; criada, estimulada e consumida. Uma espécie de Danoninho© ‘vale por um bifinho’. ATENÇÃO: eu disse Jo-ã-o SAN-TA-NA].

    Eis aí um momento progressista, no ano de 2016. Sem PeTê. Sem baranguice. Sem política kitsch.

    A volta de decoro ao Brasil. Basta de porralouquice.

    Feliz 2017 a todos.

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